Como Criar um Diálogo Deslumbrante

Publicados: 2017-07-11

Blog convidado por Gabriela Pereira

De todos os aspectos da arte de escrever, o diálogo é de longe o meu favorito. Talvez seja porque o diálogo me faz sentir como se estivesse em cena com os personagens ou me permite ver suas personalidades dinâmicas refletindo uma na outra. Ou talvez seja apenas porque sou impaciente e não gosto de folhear páginas de descrições chatas.

Seja qual for o motivo, sempre espero as passagens do diálogo ... exceto quando o diálogo é ruim. Porque, parafraseando Henry Wadsworth Longfellow, quando o diálogo é ruim, é horrível .

A boa notícia é que existem algumas maneiras fáceis de corrigir diálogos menos que estelares. Eu os chamo de “Nove NÃOs” – em oposição aos “Nove Nuncas” – porque, embora sejam coisas que os escritores devem tentar evitar, não são regras rígidas e rápidas. Você não deveria ter que cometer acrobacias verbais para eliminá-las completamente de sua escrita.

Aqui estão os Nove Nãos do Diálogo:

1. Xingamentos

Chamar nomes é quando os personagens chamam uns aos outros pelo nome no diálogo. Por exemplo:

“Então, Bill, como vão as coisas?” Jill perguntou.

“Nada mal, Jill,” Bill respondeu. “Obrigado por perguntar.”

Embora essa tática possa parecer uma maneira conveniente de estabelecer quem está dizendo o quê, ela também soa terrível e as pessoas não falam dessa maneira em conversas reais. Xingamentos cheiram a desconfiança - como se o escritor estivesse com medo de que o leitor não descubra quem está falando - mas, em vez de resolver o problema, xingar apenas faz com que o diálogo pareça desajeitado e afetado.

2. Etiquetas complicadas

Tags são a parte “ele disse, ela disse” do diálogo. Em outras palavras, se você deseja estabelecer qual personagem está falando, as tags são a maneira de fazer isso. O problema surge quando os escritores se empolgam com tags, usando palavras como bajulado, reiterado ou gargalhada. Você já ouviu alguém “gargalhar” em uma linha de diálogo? Acho que não.

Em caso de dúvida, use “dito” porque se mistura com o fundo e não chama a atenção para si mesmo. tags como “perguntou” ou “respondeu” também podem ser usadas com moderação. Mas, pelo amor de tudo o que é literário, não use tags sofisticadas aleatoriamente, apenas para mudar as coisas. Etiquetas complicadas roubam a atenção da parte importante do diálogo: o que os personagens estão dizendo.

3. Síndrome da cabeça falante

Às vezes, os escritores vão ao extremo oposto, criando diálogos que vão e voltam entre os personagens como uma bola de pingue-pongue. Quando isso acontece, o leitor não tem ideia de onde estão os personagens, ou mesmo se estão conversando.

Eu chamo isso de Síndrome da Cabeça Falante e a solução é simples:

Adicione direções de palco.

Se o diálogo é a parte falada pelos personagens, as direções de cena são as ações que acompanham essas falas. Imagine que a cena que você está escrevendo faz parte de uma peça e você é o diretor. Você precisa dizer aos personagens quando limpar a garganta, tomar um gole de chá ou pegar a arma da lareira e puxar o gatilho.

As direções do palco são especialmente úteis se você deseja criar um subtexto. Quando as ações de um personagem contradizem o que ele está dizendo, isso dá ao leitor uma janela para o que o personagem está pensando ou sentindo. Lembre-se, as ações podem falar muito mais alto que as palavras.

4. Diálogo direto

Diálogo direto é quando as pessoas dizem exatamente o que querem dizer. Isso, claro, nunca acontece na vida real. Veja por exemplo aquela cena do filme Clueless em que a protagonista, Cher, desce as escadas usando um vestido revelador. Esta é a troca que ela tem com o pai:

"O que é isso?"

"Um vestido, papai." Ela ri.

"Quem disse?"

"Calvin Klein."

Se entendermos o diálogo literalmente, parece que o pai está perguntando à filha sobre a roupa que ela está usando. A verdade é que essa conversa tem muito pouco a ver com alta costura e tudo a ver com a relação pai-filha.

Quando ele pergunta "O que é isso?" O pai de Cher está realmente dizendo "O que diabos você pensa que está vestindo?" Mas o subtexto não termina aí.

A resposta de Cher é tão doce quanto condescendente, e quando seu pai responde com "Quem disse?" ele poderia muito bem estar dizendo a ela para subir e trocar de roupa. Em vez disso, ela responde com um revirar de olhos e as palavras: “Calvin Klein”.

Jogo. Definir. Combine.

O diálogo em si consiste em nove palavras, mas diz muito mais. Essa cena seria muito menos interessante - e menos engraçada - se os personagens dissessem o que realmente querem dizer.

5. Começo divagante

No diálogo da vida real, as pessoas geralmente se aproximam do cerne da conversa. Eles perguntam uns aos outros como estão ou comentam sobre o tempo, porque essa é a atitude educada a se fazer. Pode levar vários minutos até que um dos palestrantes chegue ao verdadeiro motivo da conversa.

Você não tem tempo para conversa fiada na página. Se você desperdiçar palavras em um começo incoerente, corre o risco de perder seus leitores antes de chegar às coisas boas. Pule para onde o diálogo fica interessante e comece por aí. Você não preferiria ler uma passagem que começa com "Por que diabos você está dormindo com meu marido?" do que algo como “Ei, Sally, bom ver você”? Esqueça a preparação e vá para as coisas suculentas.

6. Sobrecarga de Advérbios

Substantivos e verbos são a “carne com batatas” da linguagem vibrante. Os advérbios são um condimento: um pouco vai longe. Isso é especialmente verdadeiro com o diálogo.

A sobrecarga de advérbios geralmente é um sinal de que você não está escolhendo os verbos certos. Se um verbo está exercendo sua influência, você não deve qualificá-lo com um advérbio. “Ele disse baixinho” torna-se muito mais específico quando você diz “Ele disse, sua respiração fazendo cócegas na orelha dela” ou “Ele disse, sua voz como xarope”. A palavra suavemente não transmite quem é o personagem ou quais são suas intenções, mas quando você adiciona as direções do palco, de repente o personagem ganha vida. Nas palavras de Strunk & White: “Não enfeite as palavras acrescentando -ly a elas, como se estivesse colocando um chapéu em um cavalo.”

7. Exposição em Diálogo

Às vezes, os escritores usam o diálogo para transmitir informações ao leitor. Lembre-se, a conversa é entre os personagens e o leitor é apenas um observador casual. Suponha que um personagem diga a outro: “Cara, você foi reprovado em todas as matérias por dois semestres seguidos. Seus pais vão ter uma vaca. Claramente, Cara sabe que foi reprovado nas aulas por dois semestres seguidos. Ele estava lá. Ele fez isso acontecer. A única razão para seu amigo dizer isso a ele no diálogo é porque o escritor precisa transmitir esse insight valioso ao leitor.

Vemos exposição em diálogos o tempo todo – o vilão dos quadrinhos dá o monólogo “é por isso que tentei dominar o mundo”, ou um personagem mentor aparece bem a tempo de dar uma palestra estimulante ao protagonista – mas apenas porque os escritores usar este dispositivo não significa que funcione.

Repita comigo: o diálogo é a comunicação entre os personagens, não a comunicação entre o escritor e o leitor. A menos que o personagem que está recebendo a informação já não saiba, encontre outra maneira de transmiti-la ao seu leitor.

8. Blips de Diálogo

Na vida real, as pessoas inserem blips no diálogo como “hum”, “então” e “bem”. Eles fazem isso para ter tempo de pensar no que vão dizer. Mas no diálogo fictício você tem todo o tempo do mundo para descobrir o que os personagens vão dizer. Esses blips não são apenas desnecessários, mas também distraem. Essas bainhas e haws são o equivalente a espinhas vermelhas no nariz do seu diálogo. Eles podem parecer insignificantes, mas vão distrair tanto os leitores que não verão mais nada. Distração. Claro, pode haver uma situação ocasional em que um “bem” ou um “hmm” ou algum outro pontinho pode ser útil, mas se você achar que seus personagens estão se apoiando demais nessas palavras, livre-se delas imediatamente.

9. Quebra de personagem

Talvez um dos maiores problemas no diálogo seja quando um personagem diz algo que está fora do personagem. Isso geralmente acontece porque o escritor está colocando palavras na boca do personagem que ele nunca diria. O personagem fala como se tivesse memorizado o dicionário, ou ele simplesmente usa gírias?

Às vezes, você pode usar o contraste entre o personagem e o diálogo fora do personagem para fazer humor. Considere, por exemplo, o filme Prenda-me Se For Capaz , quando o vigarista Frank Abagnale está se passando por um médico e tenta dominar a linguagem médica assistindo novelas hospitalares. Nesses programas, os médicos estão sempre perguntando uns aos outros se eles “concordam” com um diagnóstico, então, quando Frank se vê tendo que se passar por um médico, ele fica perguntando aos outros médicos se eles “concordam”, embora seja óbvio para o público que ele não tem ideia do que alguém está dizendo, muito menos do que está concordando. Nessa situação, a linguagem extravagante do personagem ressalta sua ignorância sobre toda a terminologia médica que está sendo lançada contra ele.

Juntando tudo

No final, essas “regras” não estão gravadas em pedra e se você precisar quebrar uma de vez em quando, faça-o. Pense nos Nove Nãos como sendo sinalizadores sinalizadores, dizendo a você quando dar uma segunda olhada em uma passagem do diálogo. Se precisar usar um desses Nove Nãos, faça-o com intenção, e não por acidente ou — pior ainda — por preguiça. Como meu professor de banda do ensino médio costumava dizer:

“Se você vai tocar errado, faça bom, alto e errado.”


BIO:

Gabriela Pereira é uma escritora, palestrante e autoproclamada nerd das palavras que quer desafiar o status quo do ensino superior. Como fundadora e instigadora do DIYMFA.com, sua missão é capacitar escritores a adotar uma abordagem empreendedora para seu crescimento profissional. Gabriela obteve seu MFA em redação criativa pela The New School e leciona em conferências nacionais, workshops regionais e online. Ela também é a apresentadora do DIY MFA Radio, um podcast popular onde ela entrevista autores de best-sellers e especialistas em publicação. Seu livro DIY MFA: WRITE WITH FOCUS, READ WITH PURPOSE, BUILD YOUR COMMUNITY já foi lançado pela Writer's Digest Books. Para se conectar com Gabriela, junte-se à equipe nerd da palavra e obtenha um kit inicial DIY MFA gratuito, acesse: DIYMFA.com/join.